22 de jan de 2009

Impressões caminhantes (Cabreúva - Porto Feliz)

De Pirapora do Bom Jesus fomos para Cabreúva, caminhando pela rodovia. Saindo da cidade, o percurso foi se mostrando cada vez mais agradável. Árvores margeando a estrada, pouco movimento de carros, muitas curvas, sitiozinhos, vira-latas, bicicletas e moradores da região, quase sempre dispostos a ouvir um boa tarde e responder um tarde!

Andei muito tempo sozinha, cantando pelas estradas, e sozinha cheguei em Cabreúva. Indicações: Suvacão, perto da matriz e da Santa Casa. Suvacão? Na hora de pedir informação, fiquei receosa. Ééé, você sabe me dizer onde fica o... Suvacão? Podia ser pegadinha da galera da produção. Mas não era, Suvacão é como chamam o ginásio da cidade. Adivinha por que?

Feliz Ano Novo

Era 31 de dezembro. Todos cansados da caminhada - aliás, das caminhadas, dos saraus, das informações, da intensidade das experiências. Num consenso calado, foi decretado dia de descanso. E os caminhantes passaram o dia estirados sob a sombra de uma árvore.



Romeu cochilando, Jaime e seus amigos filhotinhos - Suvacão, Cabreúva.

Foi no Suvacão que comemoramos o ano novo e conhecemos Jaime, o caminhante canino. No dia seguinte realizamos mais um sarau - as pessoas sentadas na escadinha da matriz, o senhor cabreuvano contador de história, a jovem cantora de pop/rock e os dondemirantes, terminando com a tradicional ciranda.

Itu

Mais um dia, mais uma caminhada. Desta vez o destino era Itu, a cidade conhecida por suas coisas grandes. Estrada de asfalto, chuva e, na barragem da hidrelétrica, um tapete infecto de espumas brancas que só o Tietê proporciona para você. Fomos recebidos na Biblioteca Comunitária Prof. Waldir de Souza Lima, que abriu suas portas para a nossa bagunça. O espaço é agradável e estruturado, porém não foi planejado para alojar 25 pessoas. Mas agente sempre dá um jeitinho. Empilha!!!

Praça da matriz em Itu, local do sarau.
Praça da matriz em Itu, local do sarau.

Itu é uma cidade média, com ar de interior, que teve relevância histórica e econômica durante o ciclo do café. De grande, somente monumentos como o orelhão e o semáforo gigante. Essa fama pegou com um humorista da televisão que dizia que tudo em Itu era grande.

Gunnar, Zinho, Manu e Franja mandando o som em Itu.
Gunnar, Zinho, Manu e Franja mandando o som em Itu.

Foi muito gostoso caminhar pelas ruas tranqüilas da noite ituana. Mas sem sombra de dúvidas o ponto alto de nossa passagem pela cidade foi o sarau. Bruno encarnou o macaco louco, subindo em árvores e macaqueando. Paula nos deu o prazer de ouvir sua incrível voz, à capela e acompanhada por Gunnar. Os poetas Serginho, Binho, Laureate, Luan, Toninho e a poeta-mirim Potyra recitaram seus versos, numa noite em que tudo pareceu confluir. Tânia cantou suas raízes chilenas, David gritou, Dani declamou. Nossos anfitriões da biblioteca comunitária participaram com poesia e rap. Manu, Franja, Zinho e Peu levaram a roda para o coreto e a dança pegou fogo. Manuel, inclusive, fez uma oficina espontânea de coco em plena praça. E Nana surpreendeu a todos, cantando os versos que ouvimos no sarau em Pirapora - ai mataram meu carneiro, ô/ ai, cortaram os quatro pé, os quatro pé/ não quero saber de nada, quero o meu carneiro em pé.



Samba no coreto - Luan.
Samba no coreto - Luan.

Platéia do sarau em Itu.
Platéia do sarau em Itu.

Caminho encantado do Jacu

Toninho Poeta. o calango flash, na estrada do Jacu.
Toninho Poeta, o calango flash, na estrada do Jacu.

No dia seguinte, fomos para Porto Feliz. Após um impasse se iríamos pela rodovia Castelo Branco ou pela Estrada do Jacú, optamos pela segunda opção, felizmente. Temíamos atoleiros e muita lama, mas a estradinha estava perfeita para caminhar. Fazendinhas, cana e muitos, muitos parreirais. Estávamos eu, Bruno e Camilla, caminhando entre a floresta encantada das uvas. Não resistimos. No segundo vendem-se uvas batemos palma, e fomos convidados a entrar. O senhor, de cerca de quarenta anos, nos deixou experimentar as uvas, nos deu água e contou um pouco de sua história. Há trinta anos ele mora naquele sítio com sua família; antes, morava em outro sítio nas redondezas. Perguntamos onde ficava o Tabarro, ponto de encontro da expedição e ele nos indicou o caminho. Mal sabíamos que estávamos no caminho errado - distraídos, não seguimos as indicações e demos a maior volta. Fomos os últimos a chegar ao Tabarro e estavam todos preocupados. Mesmo assim resolvemos caminhar os quilômetros que faltavam, junto com Manu, Paula e Potyra. Caminho florido de conto-de-fadas e manga no pé.

Potyra colhendo manga.
Potyra colhendo manga.

Em Porto Feliz, nos alojamos no centro de exposições, algo como um ginásio. Nesta noite de domingo, 05 de janeiro, a expedição comemorou um ano. Mesmo exaustos, comemoramos com bolo, também com uvas e vinho comprados no caminho. A caminhada tem alma, que cresce, cresce, contaminando o coração daqueles que caminham. Cuidado: é irremediável.

Um ano de Donde Miras em Porto Feliz - risadas de Nana e Zinho.
Um ano de Donde Miras em Porto Feliz - risadas de Nana e Zinho.

Segunda-feira, com a expedição reduzida, conhecemos o museu e o parque da cidade. Abaixo segue um pouco do que aprendemos nessas visitas:
No ano de 1693, nas terras de Antônio Cardoso Pimentel, um povoado começou a se formar junto à margem esquerda do Rio Anhemby (atual Tietê), num ponto distante pouco mais de 100 Km de São Paulo. O local era conhecido como “Araritaguaba” (que significa: “lugar onde as araras comem areia”) – nome dado pelos índios guaianazes que habitavam a região, em virtude da freqüência com que bandos dessas aves bicavam um salitroso paredão ali existente.


O tal do paredão salitroso.
O tal do paredão salitroso.

O povoamento teve início quando o dono das terras resolveu habitá-las, juntamente com seus familiares e empregados, numa época em que vários sertanistas decidiram abandonar o Bandeirismo pela Agricultura. Era uma comunidade simples, que cultivava o solo apenas para a sua subsistência. No entanto, quando a notícia da descoberta de ouro em Mato Grosso (1719) e Goiás (1725) espalhou-se pelos quatro cantos, a movimentação no vilarejo e o seu conseqüente progresso foram inevitáveis. Por sorte, ele havia-se desenvolvido em torno de um estratégico porto natural junto ao primeiro trecho navegável do rio depois de Salto. Um local que serviria de ponto de partida, ainda no século XVII, de inúmeros bandeirantes, em busca das riquezas anunciadas. No século XVIII, partiriam também as famosas monções – expedições comerciais e científicas. Todos se aventuravam pelo grande manancial, repleto de perigosas corredeiras e obstáculos, rumo ao desconhecido oeste.

Do museu, as torres da igreja - Porto Feliz.
Do museu, as torres da igreja - Porto Feliz.

Essas informações foram retiradas do site http://www.explorevale.com.br/roteirodosbandeirantes/portofeliz/historia.htm, que possui informações históricas mais detalhadas.

Zinho passeando no parque - Porto Feliz.
Zinho passeando no parque - Porto Feliz.

À noite, o sarau não contou com muitos participantes, tanto da cidade quanto da expedição. No dia seguinte caminharíamos para Boituva, com os pés calejados e o espírito donde miras.

Não sou daqui nem sou de lá, eu sou de qualquer lugar
Meu passaporte é espacial, sou cidadão da terra
E a minha vida é toda verdade e eu não tenho mais idade
E o meu passado é o meu futuro,
E o meu tempo é o infinito
A minha língua é o pensamento, só falo com o olhar
Minha fronteira é o coração de todos meus irmãos


E a minha vida é toda verdade
E eu não tenho mais idade
E o meu passado é o meu futuro
E meu tempo é o infinito...


Sérgio Dias/Liminha



Michele Torinelli

3 comentários:

Don Caco disse...

ficamos em caminhada,
fiquemos na longa caminhada...
envolvemo-no-la estrada.

EXPEDICIÓN DONDE MIRAS disse...

Legal Michele, só duas coisinhas, o Jaime nos acompanhou desde o mercado, no meio do caminho de Pirapora pra Cabreúva... e, eu acho que é Calango Flecha, em português mesmo rsrs
fotos lindas! parabéns!
valeu
beijão

Michele Torinelli disse...

hahaha, será??? olha que eu acho que é calango flash, lembra do "the flash"? rs
Flash ou flecha, o sentido é o mesmo, Toninho dispara!!
Eu conheci o Jaiminho foi só no Suvacão, achei que era um ser de lá. Ah, mas a maioria das pessoas conheceu ele lá, então fica assim mesmo rsrs
Beijo!