20 de jan de 2009

diário de bordo IV

16.01.09
Sexta turbulenta, mil telefonemas, saio do trabalho, passo em Santo André, volto pra Sampa, metrô Vila Madalena, encontro os dondemirantes, seguiremos à Demétria, meia noite, chove, donde está a bandeirantes? Quando sentimos que já não conhecemos São Paulo, que é possível perder-se, as placas desaparecem e não estamos em lugar nenhum, rodamos bastante até chegar à bendita bandeirantes, mais uma vez estou voltando pra caminhada! As indicações na estrada passadas por uma pessoa da Demétria são ótimas, mesmo na madrugada conseguimos chegar sem maiores problemas, às 4h da madrugada passamos pela estrada de chão, como o Binho gosta de dizer... conheci como estrada de terra, mas estrada de chão me soa mais bonito. Seguimos as placas da Bio-Loja, acordamos alguém na casa errada pra nos indicar o caminho, tão perto, tão escuro.

A casa estava lotada, dondemirantes por todos os lados... apesar do cansaço o sono só veio após uma garrafa de vinho tomada com Jesus, Nazaret e Maria da Penha, que estavam acordados comigo.

Percebi que aquela casa era a casa do Paulo Cabreira, local onde vinha brincar dos 3 aos 6 com a Bartira. Algum conforto o passado nos traz, talvez a sensação de que a gente existiu...

17.01.09
Vou dar uma volta quando acordo na Demétria. Aquelas ruas que eram de areia, terra, com eucaliptos ora aqui, ora ali já não existem mais, é chão batido, ta tudo mudado, muitas casas, em cada casa um jardim bonito, ta tudo cheio de árvores, plantas, flores, claro que tudo deveria ter mudado, já fazem mais de 20 anos...

Passamos o dia encolhidos na casa, uma chuva forte entrava na casa pelas portas, janelas e teto.

SARAU NA DEMÉTRIA
20h

A noite fomos para a Demétria, num salão redondo, onde organizamos o sarau, inicialmente as pessoas da Demétria estavam meio tímidas, daí o jeito é colocar os dondemirantes pra trabalhar. Fiz algumas chamadas e quando o primeiro se aventurou, logo todos perderam a timidez e tivemos um dos saraus mais bonitos de todas as caminhadas que fizemos! As participações eram lindas! De música, dança, poesia, uma na seqüência da outra, logo o sarau precisava terminar, mas não era possível, sempre mais gente apresentando algo lindo! Ao final uma ciranda dupla, uma de frente pra outra, eu olhava pros olhos de todos, que brilhavam! Algo faz sentido na vida! A ciranda faz sentido!

Após o sarau a gente não quer se desgrudar, fazemos uma fogueira num armazém fechado perto do Sítio Bahia, e continua a cantoria até as 4 da madrugada, acaba a lenha, temos que dormir, daqui há algumas horas vamos caminhar!

18.01.09
Acho que cochilamos um pouquinho, ta na hora de levantar, arrumar as coisas, alguns ficarão até a segunda, terça, eu terei que voltar nessa mesma noite.

Sentamos na frente da Bio-Loja com Paulo Cabreira, que nos explica um pouco dos processos da Demétria, do Sítio Bahia e de como se aproximou da Antroposofia, me chamou muita a atenção a explicação de um preparado, uma espécie de composto pra vitalizar a terra, mas não era exatamente o preparado que me interessou, explico: um dos preparados é feito com o chifre da vaca, no qual é colocado a bosta da vaca e enterrado durante o inverno uns 20 cm abaixo da terra, depois o chifre é retirado e o conteúdo é colocado num recipiente, talvez um barril, com água e dinamizado, o processo de dinamização foi o que me chamou a atenção, com um pau ele meche a água pra um sentido até que se forme aquele buraco do redemoinho, daí ele gira com toda a força no sentido oposto, nesse momento, segundo o Paulo, é criado o caos, e nesse caos, as vontades dele são passadas praquele preparado, que será jogado no solo junto com as sementes. Paulo enfatizou muito essa relação com o caos, que foi o que me chamou muito a atenção, pois a caminhada também faz isso com os caminhantes, sinto que a caminhada é um processo de desconstrução, de caos, onde é possível revitalizar-se. Não é fácil! Um caminhante precisa saber que cairá num redemoinho!

ÚLTIMA CAMINHADA
13h
Andamos pra Botucatu por uma estrada de terra, caminho curto e tranqüilo, com apenas uma chuvinha, ao final da estrada de terra e na chegada do centro urbano de Botucatu tomamos um caldo de cana e comemos um salame delicioso, a sensação de despedida já estava em mim, não queria que terminasse, mas a caminhada estava ali, nos seus últimos passos, a serem percorridos pelo asfalto de Botucatu. Subimos em direção ao Espaço Cultural, pelo caminho, olhei pras vacas e cupins e reconheci mais uma imagem infantil, acho que a cidade não tinha mudado tanto quanto a Demétria.

Vamos pro Ginásio Municipal, ali onde a cidade acaba, incrível a visão de onde a cidade acaba!

ÚLTIMO SARAU
20h

Vamos montar o sarau, o espaço cultural tem umas salas brancas meio redondas, eu queria montar o sarau no pátio, mas os organizadores preferem que seja do lado de dentro, fazemos dentro, me sinto um pouco sufocado, o branco, as cadeiras, algo não está bom, algo me sufoca, me oprime, será o fim da caminhada? Não consigo embarcar no sarau, um poema lírico de Alessio me chama atenção. Tenho que sair muitas vezes pra respirar, o branco, o ar me faz falta, duas meninas me hipnotizam com um sapateado lindo! A leveza, o ritmo, seu semblante fica grudado em minha mente! Logo uma delas toca uma flauta de bambu, me perco no som e na lembrança do sapateado, me falta articulação pra tudo, o sarau acaba com uma ciranda, me sinto apertado, desisto de olhar pra frente e entro dentro de mim, fim, fim da caminhada, guardo minha última imagem, duas meninas sapateando, caio no carro, fim, São Paulo nos espera... ¿dondemiras? No sapateado de alguém que não conheço, que não esqueço...

gunnar vargas
ps. estas são impressões pessoais

4 comentários:

Michele Torinelli disse...

do caos... a luz! Obrigada Gunnar por matar minha sede de saber deste fim de caminhada! Muito sensível o seu texto, acho q vivi um pouco disso tudo com vc (ah, o poder da literatura de nos transportar)!
Beijo!

Alessio Benedito disse...

"...NADA TEM UM PONTO FINAL.
A VIDA È O ETERNO ENTRE
RETICÊNCIAS..."

Anônimo disse...

Que lindo, Gunnar! Me emocionei.
Saudades de vc e de toda a família Donde Miras.
Suzi

maicher disse...

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